sexta-feira, 14 de novembro de 2014

As Pontes de Madison

  Há um filme eastwoodiano...um clássico que todos os mortais devem ter: As Pontes de Madison. Clint e Meryl numa das histórias que uma hora ou outra são vivenciadas pelo cancioneiro poético que chamamos de mente.


"O acaso indica a direção do vento:
A tola retórica dos sinos
Catapulta os silenciosos inocentes,
Surdos para o monólogo do Tempo.

Pragmatismo nenhum dizimará o mangue
Que penetra e impregna a psiqué
E o coração de uma mulher,
Castrando-lhe o tão são querer

Passai, reles comensais da culpa!
Os meus ouvidos só escutam do tempo a sátira
E a minha visão outrora turva
Enxerga agora do peixe a lágrima"

(As Pontes de Madison - Renato Lira)



Juiz não é Deus

  Ultimamente, o Brasil está produzindo notícias das mais aterradoras. Uma que muito me intrigou foi a de que uma agente de trânsito foi punida por ter parado um juiz numa blitz da Lei Seca e, após o mesmo declarar uma suposta transcendência a qualquer noção de lei, afirmar: Juiz não Deus. Segundo consta, ela responderá por abuso de poder. Onde chegamos?! "Quem guardará os guardiões?!"

  Essa noção culturalmente construída (e parcialmente amparada pela Lei) de que juízes, políticos, diplomatas, embaixadores estão acima das amarras constitucionais que aglutinam esse boneco social que é o Brasil é um dos paradigmas que precisamos expurgar para a construção de uma nova sociedade. Ninguém está acima da Lei. Observar que aqueles que deveriam defender a "ordem" no Brasil são os mesmos que se aproveitam das falhas do sistema para o engrandecimento próprio (ou falso engrandecimento, porque "o homem que se vende recebe sempre mais do que o que vale"), gera uma sensação de repulsa e desejo de mudança. Uma mudança que não se dá somente em urnas, uma vez que temos que escolher entre cartas marcadas de um só baralho. A mudança deve vir de todos os setores da sociedade...conselhos populares ajudam? Sim, e muito! (aplaudo de pé a Dilma, ou quem tiver pensado nisso, pela iniciativa) Mas não são a solução...são meros canais que poderão ser usados para a solução. Também não deve se pensar em qualquer mudança: atento para os seres acéfalos que estão clamando por uma "intervenção militar", ou seja, outra ditadura militar nas costas dos brasileiros. Pessoas assim vivem no tal presente contínuo sem vínculo com o passado que o Hobsbawm tanto apregoou. Não obstante, correndo o risco de ser julgado romântico/idealista, ainda acredito numa mudança social "para melhor". Um tipo de evolução. Para isso, será necessário que o país passe pela fase autofágica de que toda evolução/mudança/revolução necessita. Mas isso é uma velha história...como disse Belchior: 


"...ainda somos os mesmos...e vivemos! Ainda somos os mesmos...e vivemos como nossos pais..."



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Apanhador de Desperdícios

Mais uma estrela ascendeu aos céus. Dessa vez, o grandiosíssimo Manoel de Barros...

"Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."

 (O Apanhador de Desperdícios - Manoel de Barros) 



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Colóquios I

 De quando em vez, tento escrever algumas coisas inspirado na obra consagrada por Bashô e disseminada por Leminski.



"Os rios, quando os enxergo, não são apenas rios (Pobre Caeiro!), são Posêidon imerso nas lágrimas que nunca expurgou. " (Renato Lira)





"Fragmentos, nada mais que fragmentos.
Pedaços de memórias, farrapos de amores,
Dores, lembranças de bons livros, amizades,
ideologias, beijos, abraços, consolos e tormentos."
(Renato Lira)





"Entre metrôs, falsas simetrias e revoluções,
Daniel encontrou a Luz
No fim da cova dos Leões"
(Renato Lira)



"Espasmos temporais
Volver a los diecisiete
Ou é só o relógio?"
(Renato Lira) 



"Num relance, perco o momento
Num momento, perco o relance,
Não procure o porquê do ritmo,
Simplesmente dance!"

(Renato Lira)




"Réstia de luz do sol
Esperança de que o peixe
Supere o anzol"

(Renato Lira)



"Nesse cais,
Alguém desnudou o mar
Em tema para hai kai"

(Renato Lira)




Blackbird

História alternante, declínio juvenil, álibi

Não restou no cálice uma só gota
Do inebriante veneno desse amor
Nos lábios, ausência das delícias
Nos olhos, lembranças do fulgor

Holístico altar do jardim das Acácias

As pegadas na areia já não se complementam:
O mar tudo apaga, tudo despe e silencia
Na inocência de Romeu, se pensou néctar
A paradisíaca bebida que sorvia

Helena audaz dos jogos do Amor

O que fazer se já soterrou-se o mangue, 
Que o coração da dama inutilmente tentou impregnar?
Que triste pássaro pousaria feliz
Onde não há liberdade para amar?

(Blackbird - Renato Lira)







domingo, 9 de novembro de 2014

ENEM: Antes Todos os Caminhos Iam.

 

 Mais uma das pérolas do ENEM, a frase de efeito da prova surpreendeu pela profundidade ao modo McCartney: Antes todos os caminhos iam. No mesmo dia, a minha cidade sediou o evento mais inesperado do ano: o show de Pablo. Depois de tanto drama, só Marvin para suavizar as coisas.






ENEM de Todos os Ardores

Como a dor de cabeça do segundo dia do ENEM, me surge "Publicidade Infantil" como tema da redação...fiz o que pude.

"A publicidade, como meio de mudança social, revelou-se uma poderosa ferramenta e uma arma em potencial. Se utilizada visando o incentivo à conscientização e à emancipação política dos seres humanos, ela cumpre o seu papel social. Não obstante, o uso indevido da mesma pode gerar consequências catastróficas.

No século XX, a publicidade serviu principalmente para fundamentar e solidificar regimes autoritários, fascistas e genocídios baseados nas razões de Estado. Apenas com a declaração dos direitos humanos pode-se determinar parâmetros de controle da máquina publicitária.

A abertura da discussão sobre a legalidade da publicidade infantil no Brasil é um grande avanço político no que concerne à proteção dos seres humanos em formação da força massificadora e alienadora do Capital. É latente a necessidade da proibição da publicidade infantil, garantindo assim uma pressão mercadológica mais amena sobre a população infantil e uma maior autonomia para a formação dos futuros cidadãos brasileiros.

Deve-se, portanto, concretizar o papel de mudança social da publicidade restringindo a publicidade tendenciosa infantil e tendo como base a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Seguir essas indicações implica em agir pelo bem do futuro da sociedade brasileira."


Como querer caetanear o que há de bom?!




sábado, 8 de novembro de 2014

ENEM de Todos os Amores

Enquanto esperava o Tempo, tempo, tempo, tempo do ENEM, escrevi algumas considerações:

"Naufragara em seu dilema: sentia-se mais um sedento à deriva no Atlântico. Nos (en)cantos do Amor, a sede é latente e toda água é salobra. Nada tão simples... sede antes, sede durante, sede depois de se ter bebido. Algo tão incontrolável quanto o desvario do viver, amar é abarcar em si todos os mares e perder-se na antropofagia da auto-anulação. Um nirvana singular (redundância?) representado na explosão de cores que segue o movimento antropofágico. Via a si mesmo como um atirador de facas amador seguido do seu quixotesco ajudante, o homem duplicado. A cada passo em falso, o atirador fincava-lhe uma adaga e seu coração inflava com a plasticidade que é particular dos corações. Engrandecer-se para ser mais atingível. As musas do espelho são todas belas. Repousam, ideais, e o observam com o olhar dos seres transcendentais. Não sentem nada. O desfalecer do poeta lhes é tão importante quanto o percurso da formiga em busca de seu formigueiro. Todo o sentido jaz na mente do humano, ou poeta. É ele o náufrago no esquecimento de si mesmo em busca do autoconhecimento...perder-se para encontrar-se. Os amores salobros que degustou já valeram a empreitada da Vida. Sonâmbulo, vacila nos passos acrobáticos em corda bamba e desbrava o Universo. Destrona reis, solapa ismos nos sedosos lençóis da letargia. Toda Roma leva a um caminho."

(Renato Lira)



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Mandacaru

O MANDACARU

Erguido de sobressalto, o mandacaru 
Lótus redentor dos desvalidos, 
Semicerrado, semivivo, semiárido 
Profetiza o findar dos seus suplícios

 Tridente de um Netuno recessivo,
 Destronado por um erro de Apolo,
 Réu de um julgo intempestivo 
Presa de cristalino subsolo

 O mandacaru, messiânico, 
Aponta aos céus e, chagas em flor, 
Conclama as pluviosas
 Lágrimas do piedoso Criador

 Por força da divina compaixão 
Cumpre o seu sagrado ofício. 
Oásis, esplendoroso pontifício, 
O mandacaru é o Cristo do Sertão.

                                                                                                 (Renato Lira)

Tributo a Ariano Suassuna

 
TRIBUTO A ARIANO SUASSUNA


Cavalga, orixá boiadeiro 
E toca, intrépido, o teu berrante 
Regendo a estóica sinfonia 
Dos budas ruminantes

 E purga, errático, ó Caronte!
Qual rônin à revelia do Senhor
 Conduzindo as almas num levante 
Vir-a-ser em busca de um autor 

Replanta-se nas grotas, 
Jazidas sombrias de esperança, 
O sonho, desvario hibernal, 
No contratempo narcísico das andanças 

Volve a rumar, pernambucólico, 
No afã do paraíso do bom viver
Ideal seta pela qual deve morrer 
                (Renato Lira)









Nota Explicativa III

Em breve, postarei os poemas de minha autoria que representaram o IFBA-Campus Paulo Afonso no CONNEPI, que ocorreu em São Luís/MA.

O Dia em Que Conheci Cauby e Ângela

 Há muito, guardava em mim o desejo de assistir a shows da maior voz masculina e da maior voz feminina da MPB: Cauby Peixoto e Ângela Maria. 

Admiro as vozes de diversos outros artistas excepcionais, como Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Gal Costa, Nana Caymmi, Milton Nascimento, Emílio Santiago, Agnaldo Rayol e Agnaldo Timóteo, Elis Regina etc, mas confesso: Ângela e Cauby têm um quê a mais. Ela é detentora da gravação feminina que mais impactou em minh'alma: Babalú. Em segundo lugar, figura Elis com Como Nossos Pais. Cauby me cativa com a sua veia jazzística  e com a vozeirão singular do qual o povo brasileiro deve se orgulhar.

Foi na presença dessas duas figuras que passei o dia 09 de Outubro de 2014, que ficara marcado na memória de mais um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, mas que respira arte e tem sonhos. Inúmeras pessoas me ajudaram nessa empreitada, algumas até desbancando meus anjos da guarda. 

O fato é que assisti ao show dos dois juntos e ainda os conheci (como? Contarei depois...é uma longa história.).

Hobsbawm já havia alertado para o perigo dessas novas gerações que vivem num tipo de presente contínuo, sem um elo com o passado. Temo que meus contemporâneos não atentem para as pérolas que a música ainda mantém. É preciso educar os olhos para ver...e ouvidos para ouvir.

Deixo-os com uma gravação dos dois:



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Jura Secreta

 Um mistério jaz nas entrelinhas do ser humano. Mesmo o português, idioma dos mais complexos imperantes, não serve como ferramenta para expressar os sentimentos, as dores, os pensamentos humanos verdadeiramente. Caeiro nos traz uma das mais belas máximas já "vistas": pensar é estar doente dos olhos. A visão objetiva do mundo é fria, indesejável. Gosto mesmo é da subjetividade, do incompleto, de sentir o não dito. Só o olhar humano pode nos conduzir na dança da Vida, que, por vezes, tocada pelo mesmo, pode dar passos erráticos...mas sempre volta ao seu rumo. Se perdendo, se encontra. E ainda há pessoas que comprovam o mito da esfinge do "decifra-me ou devoro-te" apenas com o olhar...


"Amar: Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei....O amor é quando a gente mora um no outro."
                                                                                                   (Mário Quintana)







quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Debate Presidencial I - Parte II









Debate Presidencial I

  No debate da Band entre os presidenciáveis, muito pode ser notado. É fato que Marina Silva não é mais um pequeníssimo risco: Marina já é a favorita. Com a conjuntura que se formou, as perguntas e críticas dos semi-deuses (Eduardo Jorge, Luciana Genro, Everaldo e Levy) se concentram em "Aécio & Dilma", o que alavanca e fundamenta o discurso de uma "nova política" de Marina. Mas nada está certo: vale lembrar o que gerou a mudança abrupta na situação das eleições.
  Não obstante, o debate também gerou muitos "memes" e situações cômicas:














sábado, 23 de agosto de 2014

Canção Óbvia

 Lendo Pedagogia da Indignação, de Paulo Freire, encontrei um poema muito belo (quase tão belo quanto o Liberdade, de Marighella).

"Canção Óbvia

Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
em voz baixa e precavidos: É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porquê esses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente ,antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.

Paulo Freire
Genève, Março 1971."

[(In: Freire, P. Pedagogia da Indignação. São Paulo: UNESP, 2000.
Fonte: Instituto Paulo Freire (http://www.paulofreire.org/)]

 Semelhante ao que disse Mia Couto sobre Moçambique, para mim, o Brasil ainda não se livrou das amarras da Ditadura Militar. Grandes grupos ainda dividem o bolo, tratando a massa, o proletariado, os gados, com um tipo irônico de "justa medida", que mantém a focinheira no eleitorado. A noção de outrora de "privatização" do Governo e suas instâncias, fazendo com que os poderes sejam detidos por poucos e se tornem quase hereditários, vigora discretamente. Esse macro-poder é sustentado por inúmeros micro-poderes igualmente injustos. A convivência das elites dos macro e micro-poderes (lembremos de A Revolução dos Bichos pra saber quais são) com os cidadãos comuns é, no mínimo, turbulenta. A sobrevivência nesses ambientes é incerta. Há os que engolem o vinho tinto de sangue e os que destinam suas vidas a tentar fazer com que os verdugos bebam do próprio veneno. Além desses, há aqueles que, sob uma aparente degustação do vinho, se preparam. "Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade".
- A mini-Brasília?
 Em uníssono, gritam Caê ["tudo é divino, tudo é maravilhoso"(ironicamente)] e Chico ("De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da puta! Outra realidade menos morta...tanta mentira, tanta força bruta!").

"Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos"
(Daniel na Cova dos Leões - Renato Russo)




Volvendo ao velho Chico, que não reflete mais nos olhos a transparência de um revolucionário, e sim o tom do Blues silencioso, "de muito gorda a porca já não anda". Meu vegetarianismo se limita ao literal...então, vamos ao abate!



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A Bela e A Fera

 Há na historieta "A Bela e a Fera" um simbolismo horrendamente belo. Tenho uma certa tendência a gostar de histórias assim, e, ultimamente venho associando essa historieta à da Bela Adormecida e à do Fantasma da ópera. Nas três, sempre vemos figuras a priori malévolas e que, com o desenrolar do novelo, vão contando a sua história. A sublimação é a palavra chave nas três mensagens. Ainda temos muito o que pensar sobre isso.

"Durma, Bela; entregue-se a Morfeu.
Resta ao sono a completude da presença;
O diluir o Eu na solução do devir
Transcendendo, assim, a própria existência."
(Solilóquio Inusitado I - Renato Lira)








terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dor Elegante




Madeira do Rosarinho

 Nos últimos anos, começou a brotar a tal flor no asfalto que Drummond mencionou. Os jovens, bem como uma parcela "adulta" da sociedade, começaram a se mobilizar em busca de novos horizontes para a política brasileira. É feia, mas é uma flor. A população já estava cansada da contraposição maniqueísta PT vs PSDB (onde há a relativização do bem e do mal). Nesse ínterim, eis que surge uma possibilidade: a figura de Marina Silva.



  Desde a sua gênese, Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima apresenta certa força que algumas vezes é vista como teimosia. Foi desenganada por médicos 4 vezes (perdi a conta das hepatites, leishmaniose, contaminação por mercúrio e malárias) e quase entrou no voo que vitimou Eduardo Campos. Se inseriu na Política ao lado de Chico Mendes, lutando por causas ambientais e, após a morte do líder, informalmente, assumiu a liderança local da mobilização. Foi vereadora do município de Rio Branco, Deputada Estadual do Acre e Senadora pelo Acre (a mais nova Senadora da história), todas as vezes sendo a figura mais votada. Também foi Ministra do Meio Ambiente durante certo período na gestão de Lula.
  Sua história rende vários causos. Ela era famosa por devolver as quantias adicionais do cargo de vereadora (auxílio moradia etc) e ir à praça para "solicitar" que os seus "colegas" fizessem o mesmo. Além disso, durante uma greve em uma empresa de transporte, quando o dono chamou a PM para garantir a volta dos ônibus às ruas, ela liderou os sindicalistas frente à força opressora. Reza a lenda que o diálogo se deu assim:

"Comandante da PM: Eu vou dar um passo e se algo acontecer a mim, a senhora será a culpada!

Marina Silva: Eu também darei um passo e se algo acontecer a mim, o senhor será o culpado!"

  Esse ciclo durou o tempo necessário para o dono da empresa se irritar e tentar tirar o ônibus a todo custo, quase atropelando os policiais militares. Nesse exato momento, a ferramenta dos opressores (PM) e os oprimidos (sindicalistas) se uniram pra combater um capitalista sob o comando da vereadora ambientalista Marina Silva. Além disso, ela ficou famosa por demorar muito para liberar licenças de construção das hidroelétricas no seu tempo de Ministra, tendo sérias "ingrisias" com a também Ministra  (e hoje Presidenta) Dilma Roussef. Reza a lenda que, após ouvir de Marina que para se liberar as licenças para construção, precisaria-se de um maior levantamento de informações sobre o impacto ambiental, Dilma arrematou: "É isso ou usarei carvão! O que prefere?"

 


 Todos esses causos foram potencializados nesse último mês, com a morte do candidato a Presidente (do qual Marina era candidata a Vice-Presidente)  Eduardo Campos. A junção dos dois tinha sido considerada uma jogada política de um nível que não víamos há tempos, chegando a ser chamada de "o casamento do ano". 
"Viúva" de Campos, que se tornou um mártir com a morte trágica, Marina passou a ter um caráter ainda mais messiânico. Com a elegância natural e habitual (que consiste em colares e pulseiras feitas por ela, além de cosméticos naturais porque ela é alérgica aos industriais), a sua postura sisuda, quase como uma caricatura, ela é a aposta dos jovens que querem uma mudança. Incorporando informalmente a música que, como um bom pernambucano, Campos tinha como representativa de si mesmo, Marina une a causa ambiental com a necessidade de uma mudança no modo de fazer Política. Me utilizando de Bethânia, é como se a mobilização atual dissesse: "Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga mas nenhuma espada corta!". Ou, na língua da minha terra:




 

domingo, 17 de agosto de 2014

Mensagem


“Meu amor, enquanto nos separa um espaço, estou convencido de que o tempo é para o meu amor como o sol e a chuva são para uma planta: fazem crescer. Basta você ir, meu amor por você apresenta-se a mim como ele realmente é: gigantesco; e nele se concentra toda minha energia espiritual e toda a força dos meus sentidos …. Você vai sorrir, meu amor, e te perguntarás por que eu caí na retórica. Mas se eu pudesse pressionar contra o meu coração o seu, puro e delicado, guardaria em silêncio e não deixaria escapar nem uma só palavra.”

(De Karl Marx para sua esposa Jenny von Westphalen)




"[...] Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! 

  Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho."

(O Primo Basílio - Eça de Queiroz)





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Seu Amor



"[...] O seu amor


Ame-o e deixe-o 
Livre para amar...
Ir aonde quiser...
Brincar...
Correr...
Cansar...
Dormir em paz."

(O Seu Amor - Gilberto Gil)


  Não é de hoje que se discute sobre o Amor e todas as suas facetas e tentáculos, e, dentre as escassas características da estrutura social contemporânea, há um pedestal para a mudança de perspectiva das relações amorosas.

  Nós crescemos aprendendo que há "uma tampa para cada panela" e, em cima disso, construímos, como disse o síndico da MPB, os nossos sonhos, os nossos castelos e criamos um mundo de encanto onde tudo é belo. A simples menção à existência de um sentimento por qualquer outra pessoa já é vista como algo absurdo e é reprimida ou alimentada "às escondidas".


  O momento é propício: No fundo do lago, a maquiagem revela o verdadeiro Narciso...e ele é horrendo. Nessas décadas de "catarse" da sociedade, assuntos como religião, amor, fome, drogas, classes, política estão começando a ser encarados da forma que é necessária. O ser humano está fadado ao amor incondicional, e, quando digo incondicional, também falo da condição monogâmica que nos é imputada. Um dos conceitos que mais admiro é o de "amor livre".  Um ser humano não é uma propriedade para ser obrigado a sentir amor (e vale ressaltar as múltiplas faces do amor) por só uma pessoa. Mesmo assim, como membro desse espaço-tempo, noto a minha alta resistência para a "praxis" dele. Quando o relacionamento afunda em lama (não a lama poética de Pernambuco, mas a lama de "Trocando em Miúdos"), surge um agente muito poderoso e um dos maiores motivos para o fim das relações: o ciúme.   

      
"O ciúme lançou sua flecha preta




E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme"

(O Ciúme - Caetano Veloso)



  Faz-se mister enfrentar as nossas contradições internas buscando o lapidar do Ser, libertar pela verdade encarando nossa natureza. Autoconhecimento é a palavra chave e o amor livre (em toda a sua extensão) é a meta. "Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único". A mesma pessoa que disse isso, John Lennon, passou os últimos anos de sua vida amando incondicionalmente a uma só mulher.
   Não o fez por convenções sociais, mas pela ausência de necessidade de outra pessoa para conviver afora a Yoko Ono. Ela não representou uma reles tampa para a panela dele, a metade da laranja. Nela, ele descobriu um ser com uma visão de mundo muito bela.  Eles se conheceram na exposição de Yoko, onde havia uma escada e John subiu lá em cima e viu um simples "Sim!". Que pessoa seria capaz de passar uma mensagem tão simples, instigante e bela ao mesmo tempo? Uma japonesa genial com a qual milhões de "beatlemaníacos" têm um débito por, além de ter feito do ídolo deles um homem feliz e compreendido, ter sido injustiçada por tal.


"[...]É um estar-se preso por vontade


É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face"

(Monte Castelo - Renato Russo)






  "Acho que a gente é que é feliz", disse o Russo uma vez. Pode parecer contraditório, mas, anseio pela Yoko séc. XXI (rs). Creio que o amor livre também abrange o reconhecimento de que uma pessoa se identifica tanto com outra que não há necessidade de terceiros na relação.