quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Aquarela Liraiana

 18 anos? Sim... antes, eu não acreditava quando ouvia os mais velhos dizerem "como o tempo passa rápido", agora concordo com um sorriso reticente que tende a uma alegria crônica. Coisa de um (não mais tão) jovem poeta (que tem como Rilke a figura jorlaniana...ou será que o Rilke é a figura jorlaniana do primeiro jovem poeta?).

 Da criança que sonhava em mudar o mundo radicalmente e ser astronauta, pouco resta: poesia, a força para mudar a si mesma, uma esperança um tanto anarquista e a aptidão para colher o melhor de cada pessoa, ideia, situação. Há exatamente seis anos, disse-me meu avô algo do tipo, já revelando a quem eu puxei a mania de ficar puxando as pessoas para compartilhar as descobertas e experiências culturais/filosóficas (Evandro, que ocupa conjuntamente com meu tio, Marconi, o lugar de maior valor na minha vida. Como eu, ele tinha o costume de viver uma profusão de verbos e se frustrar quando não entendido.):

"- Renato, como estás completando 12 anos, vamos ouvir uma música que lhe acompanhará por toda a sua vida."

 Dizendo isso, ele colocou uma das poucas faixas de um DVD de Toquinho que nunca tínhamos ouvido juntos: Aquarela. Na primeira vez que escutei, não entendi muita coisa. E ele me falou:

"- Com o tempo, você vai entender cada vez mais essa música. Grave bem essa parte:

'Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.'"

(Aquarela - Toquinho)


  Após isso, passei por várias situações muito felizes (romances verdadeiros enquanto duraram, uma vez que eram chamas, amizades sinceras, viagens incríveis dentro de livros e fora deles, momentos históricos, sentimentos sublimes) e algumas nem tanto (abram alas para o eufemismo passar). A despedida do meu avô (que encarei como um "até logo") foi a mais difícil. Como disse numa das minhas tentativas de escrever poemas, jaz o artista, mas sua voz ainda ecoa no palco (saudosista?).

"Memory, turn your face to the moonlight
Let your memory lead you
Open up, enter in
If you find there the meaning of what happiness is
Then a new life will begin"

(Memory, do musical Cats)


Liberdade, liberdade, grita um alter ego anarquista/poeta lúcido. A vida é a mais pura arte. Creio que, em pouco tempo, estou conseguindo aprendê-la. Há um poema de Leminski que fala muito em pouco espaço, como lhe é característico.



"Um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval"

(Leminski, do livro Caprichos e Relaxos)









P.S.: Feliz aniversário para mim! rs

sábado, 11 de janeiro de 2014

Dia Branco

 11 de Janeiro, data especialíssima. Um marco! O nascimento do Geraldo Azevedo (Salve! Salve!), um dos meus gurus nos devaneios poéticos sobre o nada/tudo. Exímio compositor, consegue expressar sua sensibilidade com maestria e exatidão. Como mensurar "Dia Branco", "Bicho de Sete Cabeças II", "Canção da Despedida", "Chorando e Cantando", "Você Se Lembra", "Dona Da Minha Cabeça"?

"Se você vier
 pro que der e vier 
comigo,
Eu lhe prometo o Sol
Se hoje o Sol sair,
Ou a chuva
Se a Chuva cair...

Se branco ele for..."

(Canção: Dia Branco/Composição: Geraldo Azevedo, Renato Rocha)



Interlúdio

 Esse poema, com viés de um alter ego nascituro, me chegou agressivo, mas, sem revelar suas intenções. Pura simbiose. Lembro do que li em "O Gene Egoísta", de Dawkins, que pode ser usado aqui para representar, a grosso modo, a luta egoísta pela preservação de algo. No mais, ele é auto-explicativo.


Sibila a seta profética do Eros.
Psiquê devassada,
Cega, 
Vassala,
Mero Prêt-à-porter,
Olvida que 
O pior cego é aquele que quer ver.
Súbito: O ativismo de Bardot, 
A intensidade de Monroe
E a distância de Garbo.
Non, je ne regrette rien!
Jaz o artista, mas sua voz ainda
Ecoa no palco (saudosista?).

(Interlúdio, Renato Lira)



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Ser Aprendiz de Si Mesmo

 Questionando-me sobre o meu "Big Bang" filosófico, ou a estreia do pensar, surgiram lembranças da minha professora de Filosofia e amiga Maria Lucileide Mota Lima. Se utilizando da ironia socrática, foi a parteira das minhas ideias iniciais. O seu livro, Ser Aprendiz de Si Mesmo, ampliou o meu modo de ver o Mundo. Tento expressar minha eterna gratidão num poema que me veio junto às lembranças.


"Horizonte à vista,
Vêm ao cerne do
 Ser
Questionamentos sacros
Meio convidando, meio intimando
Ao vislumbrar filosófico
Os meus olhos lassos
Calma, let it be,
Disse-me Lady Luci Motriz,
 Que inefável é a vastidão do 
Uno no 
Verso
E as incontáveis verdades 
Se entrecruzam e 
Interpenetram nesse 
Vórtice
 Que chamamos de
Vida"

(Ser Aprendiz de Si Mesmo, Renato Lira)





terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Distraídos Venceremos!

 Leminski foi/é um acontecimento especialíssimo em minha vida de poeta (todo mundo é poeta. Alguns escrevem, outros sentem ou vivem, ou tudo junto...rs). Sua forma de pensar, raciocinar e associar é muito parecida com a minha. Lendo "Distraídos Venceremos", encontrei um dos poemas da lista liraiana "poemas que eu queria ter feito". Serve vivê-lo?



"Carrego o peso da lua,
Três paixões mal curadas,
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.

Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.  
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego."

(Paulo Leminski)





sábado, 4 de janeiro de 2014

O Amálgama Adélia

 Quando penso em poesia, um dos primeiros nomes que me vêm à mente é Adélia Prado. Essa poetisa consegue expressar toda a monstruosidade e delicadeza da poesia. Veleja entre o sagrado e o profano como poucos sequer cogitaram se aventurar. Uma das características de seu pensamento que mais admiro é a sua capacidade de criar amálgamas de cores e palavras. Já postei outro poema dela que reflete essa característica de forma maestral (Amor violeta). Agora, planto no meu recanto mais um dos poemas belíssimos dela.


IMPRESSIONISTA

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

( Adélia Prado, do livro Bagagem)









Quem Me Leva Os Meus Fantasmas?


 Ainda em 2013, o novo DVD da Abelha Rainha, Maria Bethânia, chegou em meus lares físico e mental. Inúmeros foram os meus assombros e batimentos descompassados por causa das surpresas e dos deleites que só ela sabe suscitar.
 Dentre todo o amálgama bethaniano, uma canção portuguesa me atingiu em cheio o peito de forma que há tempos não era atingido por uma canção. Ela é de autoria de Pedro Abrunhosa e é nominada "Quem me leva os meus fantasmas?". 
 Após ouvir dezenas de vezes a versão do DVD, busquei a versão original, do Pedro, e agradeci aos céus o fato de ter ouvido primeiro na voz de Bethânia. Ela conseguiu fazer a canção transparecer e transbordar de uma forma que nem o autor conseguiu (não indico, de forma alguma, a versão de Pedro Abrunhosa).
 Sem mais, deixo a canção sozinha nessa selva para se defender sozinha.

"De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado?
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado?
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta?
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?"
"E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta"
"Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?"
(Pedro Abrunhosa)


P.S.: Sou Eu!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pés Descalços, Peço Passagem...

Pensando, silencio.
Outrora,
O canhão verborrágico de fac-símiles.
Hoje, me escapa o cataclismo de
Mímeses
Guiadas por Morfeu nesse antro de sinapses
Relapsas que chamamos de
Terra.
Por mais distante,
O errante navegante o que,
Caê?!
A ninfa adormecida,
Bela
Antítese sine qua non da minha existência
Me guarda da letargia do não ser.
As flâmulas do vencedor
Rasgam o Sol e
Rompem a noção de Tempo.
The winner takes it all?

(Pés Descalços, Peço Passagem, Renato Lira)