segunda-feira, 23 de junho de 2014

São João, Xangô Menino!

 Passei uma boa parte da infância resistindo às minhas raízes, mas, tendo motivos para me arrepender de tal, não o faço. O fato de ter conhecido, sentido as raízes da minha terra tardiamente me propiciou degustar com maior sapiência. Outrora, abordarei com mais afinco tal assunto. 

 O que importa é que estamos em época de São João! Mesmo estando no fim, é Junho, não é qualquer mês! Estamos no mês em que comemoramos o "Dia dos Namorados" e o "Dia do Químico" (este último passei a marcar por causa da minha grande amiga, a personalidade jorlaniana). Para os admiradores do Dadaísmo, como eu, também é um mês simbólico: foi em Junho que houve a primeira exposição do movimento, em Berlim. Além disso, ainda temos as comemorações dos nascimentos (as quais renderão outras postagens) de grandes pilares da cultura mundial: Chico Buarque, Maria Bethânia, Meryl Streep e Elza Soares.

 É São João! O São João plural, brasileiro! Não simplesmente o Xangô ou o São João...o São João, Xangô menino. Viva o Brasil sincrético!

"Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos mamelucos sararás
Crilouros guaranisseis e judárabes

Orientupis orientupis
Ameriquítalos luso nipo caboclos
Orientupis orientupis
Iberibárbaros indo ciganagôs

Somos o que somos
Inclassificáveis"
(Inclassificáveis/Arnaldo Antunes)







terça-feira, 17 de junho de 2014

Navegar Impreciso

 "Antigamente, eu era eterno", disse Leminski. Acertou mais uma vez. Nesses últimos tempos, após vivências mil, venho me acostumando e aprendendo com a Impermanência, lei máxima da vida. Como Heráclito já nos tinha alertado, estamos mudando o tempo todo. Via de regra, somos metamorfoses ambulantes. A questão é encarar de peito aberto e viver o presente. O Budismo aborda esse tema de forma indelével. Viver o futuro gera ansiosos e viver o passado gera deprimidos. Por que não viver no presente, que nos traz calma e harmonia? A resposta só aparece na praxis...é muito difícil domar esse "cavalo selvagem" (como diria Jetsunma Tenzin Palmo) que é a mente, mas não é impossível. Como aprendiz, vou percorrendo esse caminho com o brilho no olhar.

"Porque sou vivo

Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei

Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro"
(Cérebro Eletrônico - Gilberto Gil)

"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." 

(João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas)


terça-feira, 10 de junho de 2014

OM

"Solilóquio. À alvorada, murmurava palavras tonalmente agradáveis...solilóquio. Disse um velho sábio que as pessoas são universos particulares; este era o seu Universo. S-O-L-I-L-Ó-Q-U-I-O... passaram-se horas de degustação, tal qual um bom vinho seco. Tornada monótona a sequência, partia para a pronúncia das palavras comuns, vulgares. Mais um apóstata, subversivo. Mas transcendental. Um gourmet entre subalimentados. Silêncio. Súbito, pausa o tempo, o que lhe propicia o vislumbre do parto das palavras. Heresia...como se deixavam pronunciar tanto lixo sonoro? A harmonia por pouco não lhe escorreu pelos dedos...Intrépido. Estava decidido: Partiria as correntes do mais-do-mesmo. I-N-T-R-É-P-I-D-O... cada vez menos letras surgiam na mente. Amavam-no a tal ponto que reconheciam sua necessidade de transcendê-las. Silêncio. Ilumina-se o palco...OM..."

(Renato Lira)