quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Debate Presidencial I - Parte II









Debate Presidencial I

  No debate da Band entre os presidenciáveis, muito pode ser notado. É fato que Marina Silva não é mais um pequeníssimo risco: Marina já é a favorita. Com a conjuntura que se formou, as perguntas e críticas dos semi-deuses (Eduardo Jorge, Luciana Genro, Everaldo e Levy) se concentram em "Aécio & Dilma", o que alavanca e fundamenta o discurso de uma "nova política" de Marina. Mas nada está certo: vale lembrar o que gerou a mudança abrupta na situação das eleições.
  Não obstante, o debate também gerou muitos "memes" e situações cômicas:














sábado, 23 de agosto de 2014

Canção Óbvia

 Lendo Pedagogia da Indignação, de Paulo Freire, encontrei um poema muito belo (quase tão belo quanto o Liberdade, de Marighella).

"Canção Óbvia

Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
em voz baixa e precavidos: É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porquê esses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente ,antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.

Paulo Freire
Genève, Março 1971."

[(In: Freire, P. Pedagogia da Indignação. São Paulo: UNESP, 2000.
Fonte: Instituto Paulo Freire (http://www.paulofreire.org/)]

 Semelhante ao que disse Mia Couto sobre Moçambique, para mim, o Brasil ainda não se livrou das amarras da Ditadura Militar. Grandes grupos ainda dividem o bolo, tratando a massa, o proletariado, os gados, com um tipo irônico de "justa medida", que mantém a focinheira no eleitorado. A noção de outrora de "privatização" do Governo e suas instâncias, fazendo com que os poderes sejam detidos por poucos e se tornem quase hereditários, vigora discretamente. Esse macro-poder é sustentado por inúmeros micro-poderes igualmente injustos. A convivência das elites dos macro e micro-poderes (lembremos de A Revolução dos Bichos pra saber quais são) com os cidadãos comuns é, no mínimo, turbulenta. A sobrevivência nesses ambientes é incerta. Há os que engolem o vinho tinto de sangue e os que destinam suas vidas a tentar fazer com que os verdugos bebam do próprio veneno. Além desses, há aqueles que, sob uma aparente degustação do vinho, se preparam. "Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade".
- A mini-Brasília?
 Em uníssono, gritam Caê ["tudo é divino, tudo é maravilhoso"(ironicamente)] e Chico ("De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da puta! Outra realidade menos morta...tanta mentira, tanta força bruta!").

"Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos"
(Daniel na Cova dos Leões - Renato Russo)




Volvendo ao velho Chico, que não reflete mais nos olhos a transparência de um revolucionário, e sim o tom do Blues silencioso, "de muito gorda a porca já não anda". Meu vegetarianismo se limita ao literal...então, vamos ao abate!



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A Bela e A Fera

 Há na historieta "A Bela e a Fera" um simbolismo horrendamente belo. Tenho uma certa tendência a gostar de histórias assim, e, ultimamente venho associando essa historieta à da Bela Adormecida e à do Fantasma da ópera. Nas três, sempre vemos figuras a priori malévolas e que, com o desenrolar do novelo, vão contando a sua história. A sublimação é a palavra chave nas três mensagens. Ainda temos muito o que pensar sobre isso.

"Durma, Bela; entregue-se a Morfeu.
Resta ao sono a completude da presença;
O diluir o Eu na solução do devir
Transcendendo, assim, a própria existência."
(Solilóquio Inusitado I - Renato Lira)








terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dor Elegante




Madeira do Rosarinho

 Nos últimos anos, começou a brotar a tal flor no asfalto que Drummond mencionou. Os jovens, bem como uma parcela "adulta" da sociedade, começaram a se mobilizar em busca de novos horizontes para a política brasileira. É feia, mas é uma flor. A população já estava cansada da contraposição maniqueísta PT vs PSDB (onde há a relativização do bem e do mal). Nesse ínterim, eis que surge uma possibilidade: a figura de Marina Silva.



  Desde a sua gênese, Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima apresenta certa força que algumas vezes é vista como teimosia. Foi desenganada por médicos 4 vezes (perdi a conta das hepatites, leishmaniose, contaminação por mercúrio e malárias) e quase entrou no voo que vitimou Eduardo Campos. Se inseriu na Política ao lado de Chico Mendes, lutando por causas ambientais e, após a morte do líder, informalmente, assumiu a liderança local da mobilização. Foi vereadora do município de Rio Branco, Deputada Estadual do Acre e Senadora pelo Acre (a mais nova Senadora da história), todas as vezes sendo a figura mais votada. Também foi Ministra do Meio Ambiente durante certo período na gestão de Lula.
  Sua história rende vários causos. Ela era famosa por devolver as quantias adicionais do cargo de vereadora (auxílio moradia etc) e ir à praça para "solicitar" que os seus "colegas" fizessem o mesmo. Além disso, durante uma greve em uma empresa de transporte, quando o dono chamou a PM para garantir a volta dos ônibus às ruas, ela liderou os sindicalistas frente à força opressora. Reza a lenda que o diálogo se deu assim:

"Comandante da PM: Eu vou dar um passo e se algo acontecer a mim, a senhora será a culpada!

Marina Silva: Eu também darei um passo e se algo acontecer a mim, o senhor será o culpado!"

  Esse ciclo durou o tempo necessário para o dono da empresa se irritar e tentar tirar o ônibus a todo custo, quase atropelando os policiais militares. Nesse exato momento, a ferramenta dos opressores (PM) e os oprimidos (sindicalistas) se uniram pra combater um capitalista sob o comando da vereadora ambientalista Marina Silva. Além disso, ela ficou famosa por demorar muito para liberar licenças de construção das hidroelétricas no seu tempo de Ministra, tendo sérias "ingrisias" com a também Ministra  (e hoje Presidenta) Dilma Roussef. Reza a lenda que, após ouvir de Marina que para se liberar as licenças para construção, precisaria-se de um maior levantamento de informações sobre o impacto ambiental, Dilma arrematou: "É isso ou usarei carvão! O que prefere?"

 


 Todos esses causos foram potencializados nesse último mês, com a morte do candidato a Presidente (do qual Marina era candidata a Vice-Presidente)  Eduardo Campos. A junção dos dois tinha sido considerada uma jogada política de um nível que não víamos há tempos, chegando a ser chamada de "o casamento do ano". 
"Viúva" de Campos, que se tornou um mártir com a morte trágica, Marina passou a ter um caráter ainda mais messiânico. Com a elegância natural e habitual (que consiste em colares e pulseiras feitas por ela, além de cosméticos naturais porque ela é alérgica aos industriais), a sua postura sisuda, quase como uma caricatura, ela é a aposta dos jovens que querem uma mudança. Incorporando informalmente a música que, como um bom pernambucano, Campos tinha como representativa de si mesmo, Marina une a causa ambiental com a necessidade de uma mudança no modo de fazer Política. Me utilizando de Bethânia, é como se a mobilização atual dissesse: "Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga mas nenhuma espada corta!". Ou, na língua da minha terra:




 

domingo, 17 de agosto de 2014

Mensagem


“Meu amor, enquanto nos separa um espaço, estou convencido de que o tempo é para o meu amor como o sol e a chuva são para uma planta: fazem crescer. Basta você ir, meu amor por você apresenta-se a mim como ele realmente é: gigantesco; e nele se concentra toda minha energia espiritual e toda a força dos meus sentidos …. Você vai sorrir, meu amor, e te perguntarás por que eu caí na retórica. Mas se eu pudesse pressionar contra o meu coração o seu, puro e delicado, guardaria em silêncio e não deixaria escapar nem uma só palavra.”

(De Karl Marx para sua esposa Jenny von Westphalen)




"[...] Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! 

  Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho."

(O Primo Basílio - Eça de Queiroz)





sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Seu Amor



"[...] O seu amor


Ame-o e deixe-o 
Livre para amar...
Ir aonde quiser...
Brincar...
Correr...
Cansar...
Dormir em paz."

(O Seu Amor - Gilberto Gil)


  Não é de hoje que se discute sobre o Amor e todas as suas facetas e tentáculos, e, dentre as escassas características da estrutura social contemporânea, há um pedestal para a mudança de perspectiva das relações amorosas.

  Nós crescemos aprendendo que há "uma tampa para cada panela" e, em cima disso, construímos, como disse o síndico da MPB, os nossos sonhos, os nossos castelos e criamos um mundo de encanto onde tudo é belo. A simples menção à existência de um sentimento por qualquer outra pessoa já é vista como algo absurdo e é reprimida ou alimentada "às escondidas".


  O momento é propício: No fundo do lago, a maquiagem revela o verdadeiro Narciso...e ele é horrendo. Nessas décadas de "catarse" da sociedade, assuntos como religião, amor, fome, drogas, classes, política estão começando a ser encarados da forma que é necessária. O ser humano está fadado ao amor incondicional, e, quando digo incondicional, também falo da condição monogâmica que nos é imputada. Um dos conceitos que mais admiro é o de "amor livre".  Um ser humano não é uma propriedade para ser obrigado a sentir amor (e vale ressaltar as múltiplas faces do amor) por só uma pessoa. Mesmo assim, como membro desse espaço-tempo, noto a minha alta resistência para a "praxis" dele. Quando o relacionamento afunda em lama (não a lama poética de Pernambuco, mas a lama de "Trocando em Miúdos"), surge um agente muito poderoso e um dos maiores motivos para o fim das relações: o ciúme.   

      
"O ciúme lançou sua flecha preta




E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme"

(O Ciúme - Caetano Veloso)



  Faz-se mister enfrentar as nossas contradições internas buscando o lapidar do Ser, libertar pela verdade encarando nossa natureza. Autoconhecimento é a palavra chave e o amor livre (em toda a sua extensão) é a meta. "Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único". A mesma pessoa que disse isso, John Lennon, passou os últimos anos de sua vida amando incondicionalmente a uma só mulher.
   Não o fez por convenções sociais, mas pela ausência de necessidade de outra pessoa para conviver afora a Yoko Ono. Ela não representou uma reles tampa para a panela dele, a metade da laranja. Nela, ele descobriu um ser com uma visão de mundo muito bela.  Eles se conheceram na exposição de Yoko, onde havia uma escada e John subiu lá em cima e viu um simples "Sim!". Que pessoa seria capaz de passar uma mensagem tão simples, instigante e bela ao mesmo tempo? Uma japonesa genial com a qual milhões de "beatlemaníacos" têm um débito por, além de ter feito do ídolo deles um homem feliz e compreendido, ter sido injustiçada por tal.


"[...]É um estar-se preso por vontade


É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face"

(Monte Castelo - Renato Russo)






  "Acho que a gente é que é feliz", disse o Russo uma vez. Pode parecer contraditório, mas, anseio pela Yoko séc. XXI (rs). Creio que o amor livre também abrange o reconhecimento de que uma pessoa se identifica tanto com outra que não há necessidade de terceiros na relação.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

A Chegada de Ariano Suassuna no Céu

 Navegando pelo blog do Leonardo Boff, a quem muito admiro, achei uma obra muito pertinente:

A CHEGADA DE ARIANO SUASSUNA NO CÉU
Autores: Klévisson Viana e Bule-Bule

Nos palcos do firmamento
Jesus concebeu um plano
De montar um espetáculo
Para Deus Pai Soberano
E, ao lembrar de um dramaturgo,
Mandou buscar Ariano.

Jesus mandou-lhe um convite,
Mas Ariano não leu.
Estava noutro idioma,
Ele num canto esqueceu,
Nem sequer observou
Quem foi que lhe escreveu.

Depois de um tempo, mandou
Uma segunda missiva.
A secretária do artista
Logo a dita carta arquiva,
Dizendo: — Viagem longa
A meu mestre não cativa.

Jesus sem ter a resposta
Disse torcendo o bigode:
— Eu vejo que Suassuna
É teimoso igual a um bode.
Não pode, mas ele pensa
Que é soberano e pode!

Jesus, já perdendo a calma,
Apelou pra outro suporte.
Para cumprir a missão,
Autorizou Dona Morte:
— Vá buscar o escritor,
Mas vê se não erra o corte!

A morte veio ao País
Como turista estrangeiro,
Achando que o Brasil
Era só Rio de Janeiro.
No rastro de Suassuna,
Sobrou pra Ubaldo Ribeiro.

Porém, antes de encontrá-lo,
Sofreu um constrangimento
Passando em Copacabana,
Um malfazejo elemento
Assaltou ela levando
Sua foice e documento.

A morte ficou sem rumo
E murmurou dessa vez:
— Pra não perder a viagem
Vou vender meu picinez
Para comprar outra foice
Na loja de algum chinês.

Por um e noventa e nove
A dita foice comprou.
Passando a mão pelo aço,
Viu que ela enferrujou
E disse: — Vai essa mesma,
Pois comprar outra eu não vou!

A morte saiu bolando,
Sem direção e sem tino,
Perguntando a um e a outro
Pelo escritor nordestino,
Obteve informação,
Gratificando um menino.

Ao encontrar João Ubaldo,
Viu naufragar o seu plano,
Se lembrando da imagem
Disse: — Aqui há um engano.
Perguntou para João
Onde é que estava Ariano.

Nessa hora João Ubaldo,
Quase ficando maluco,
Tomou um susto arretado,
Quando ali tocou um cuco,
Mas, gaguejando, falou:
—Ele mora em Pernambuco!

A morte disse: — Danou-se
Dinheiro não tenho mais
Para viajar tão longe,
Mas Ariano é sagaz.
Escapou mais uma vez,
Vai você mesmo, rapaz!

Quando chegou lá no Céu
Com o escritor baiano,
Cristo lhe deu uma bronca:
— Já foi baldado o meu plano.
Pedi um da Paraíba
E você trouxe um baiano.

João Ubaldo é talentoso,
Porém não escreve tudo.
“Viva o Povo Brasileiro”
É sua obra de estudo,
Mas quero peça de humor,
Que o Céu tá muito sisudo.

Foi consultar os arquivos
Pra ressuscitar João,
Mas achou desnecessário,
Pois já era ocasião
Pra ele vir prestar contas
Ali na Santa Mansão.

Jesus olhou para a Morte
E disse assim: — Serafina,
Vejo não és mais a mesma.
Tu já foste mais malina,
Tá com pena ou tá com medo,
Responda logo, menina?!

— Jesus, eu vou lhe falar
Que preciso de dinheiro.
Ariano mora bem
No Nordeste brasileiro.
Disse o Cristo: —Tenho pressa,
Passe lá no financeiro!

— Só faço que é pra o Senhor.
Pra outro, juro não ia.
Ele que se conformasse
Com o escritor da Bahia.
Se dependesse de mim,
Ariano não morria.

A morte na internet
Comprou passagem barata.
Quase morria de susto
Naquela viagem ingrata.
De vez em quando dizia:
— Eita que viagem chata!

Uma aeromoça lhe trouxe
Duas barras de cereais.
Diz ela: — Estou de regime.
Por favor, não traga mais,
Porque se vier eu como,
Meu apetite é voraz!

Quando chegou no Recife,
Ficou ela de plantão
Na porta de Ariano
Com sua foice na mão,
Resmungando: — Qualquer hora
Ele cai no alçapão!

A morte colonizada,
Pensando em lhe agradar,
Uma faixa com uma frase
Ela mandou preparar,
Dizendo: “Welcome Ariano”,
Mas ele não quis entrar.

Vendo a tal faixa, Ariano
Ficou muito revoltado.
Começou a passar mal,
Pediu pra ser internado
E a morte foi lhe seguindo
Para ver o resultado.

Eu não sei se Ariano
Morreu de raiva ou de medo.
Que era contra estrangeirismos,
Isso nunca foi segredo.
Certo é que a morte o matou
Sem lhe tocar com um dedo.

Chegou no Céu Ariano,
Tava a porta escancarada.
São Pedro quando o avistou
Resmungando na calçada,
Correu logo pra o portão,
Louvando a sua chegada.

Um anjinho de recado
Foi chamar o Soberano,
Dizendo: – O Senhor agora
Vai concretizar seu plano.
São Pedro mandou dizer
Que aqui chegou Ariano.

Jesus saiu apressado,
Apertando o nó da manta
E disse assim: — Vou lembrar
Dessa data como santa
Que a arte de Ariano
Em toda parte ela encanta.

São Pedro lá no portão
Recebeu bem Ariano,
Que chegou meio areado,
Meio confuso e sem plano.
Ao perceber que morreu,
Se valeu do Soberano.

Com um chapelão de palha
Chegou Ascenso Ferreira,
O grande Câmara Cascudo,
Zé Pacheco e Zé Limeira.
João Firmino Cabral
Veio engrossar a fileira.

E o próprio João Ubaldo
(Que foi pra lá por engano)
Veio de braços abertos
Para abraçar Ariano.
E esse falou: – Ubaldo,
Morrer não tava em meu plano!

Logo chegou Jorge Amado
E o ator Paulo Goulart.
Veio também Chico Anysio
Que começou a contar
Uma anedota engraçada
Descontraindo o lugar.

Logo chegou Jesus Cristo,
Com seu rosto bronzeado.
Veio de braços abertos,
Suassuna emocionado
Disse assim: — Esse é o Mestre,
O resto é papo furado!

Suassuna que, na vida,
Sonhou em ser imortal,
Entrou para Academia,
Mas percebeu, afinal,
Que imortal é a vida
No plano celestial.

Jesus explicou seus planos
De fazer uma companhia
De teatro e ele era
O escritor que queria
Para escrever suas peças,
Enchendo o Céu de alegria.

Nisso Ariano responde:
— Senhor, eu me sinto honrado,
Porém escrever uma obra
É serviço demorado.
Às vezes gasto dez anos
Para obter resultado.

Nisso Jesus gargalhou
E disse: — Fique à vontade.
Tempo aqui não é problema,
Estamos na eternidade
E você pode criar
Na maior tranquilidade.

Um homem bem pequenino
Com chapeuzinho banzeiro,
Com um singelo instrumento,
Tocou um coco ligeiro
Falando da Paraíba:
Era Jackson do Pandeiro.

Logo chegou Luiz Gonzaga,
Lindu do Trio Nordestino,
E apontou Dominguinhos
Junto a José Clementino
E o grande Humberto Teixeira,
Raul e Zé Marcolino.

Depois chegou Marinês
Com Abdias de lado
E Waldick Soriano,
Com um vozeirão impostado,
Cantou “Torturas de Amor”,
Como sempre apaixonado.

Veio então Silvio Romero
Com Catulo da Paixão,
Suassuna enxugou
As lágrimas de emoção
E Catulo, com seu pinho,
Cantou “Luar do Sertão”.

Leandro Gomes de Barros
Junto a Leonardo Mota,
Chegou Juvenal Galeno,
Otacílio Patriota.
Até Rui Barbosa veio
Com título de poliglota.

Chegou Regina Dourado,
Tocada de emoção,
Juntinho de Ariano,
Veio e beijou sua mão
E disse: — Na sua peça
Quero participação.

Ariano dedicou-se
Àquele projeto novo.
Ao concluir sua peça,
Jesus deu o seu aprovo
E a peça foi encenada
Finalmente para o povo.

Na peça de Ariano
Só participa alma pura.
Ariano virou santo,
Corrigiu sua postura.
Lá no Céu ganhou o título
Padroeiro da cultura.

Os artistas que por ele
Já nutriam grande encanto
Agora estando em apuros,
Residindo em qualquer canto,
Lembra de Santo Ariano
E acende vela pro santo.

Ariano foi Quixote
Que lutou de alma pura.
Contra a arte descartável
Vestiu a sua armadura
Em qualquer dia do ano
Eu digo: viva Ariano
Padroeiro da Cultura!

FIM


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Porque Tudo o Que é Vivo Morre.

ARIANO SUASSUNA (1927-2014)





"[...] Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre."
(Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida)


JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014)





"[...] Pois, se depois da metralha portuguesa não havia ali mais que as aves marinhas, o oceano e a indiferença dos acontecimentos naturais, havia o suficiente para que se gravassem para todo o sempre na consciência dos homens as palavras que ele agora pronuncia, embora daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam seus lábios movendo-se, nem se enxergue em seu rosto mais que a expressão perplexa de quem morre sem saber. Mas são palavras nobres contra a tirania e a opressão sopradas pela morte nos ouvidos do alferes, e são portanto verdadeiras."
(João Ubaldo Ribeiro em Viva O Povo Brasileiro)


RUBEM ALVES (1933-2014)




"Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: 'Todos os seres humanos têm o direito de morrer sem dor.'"
(Rubem Alves em Ostra Feliz Não Faz Pérola)





domingo, 3 de agosto de 2014

Atento aos Sinais

NEY MATOGROSSO



  Dentre todos os grandes cantores do Brasil, Ney Matogrosso  é o mais instigante, fascinante, não 
só pela sua voz rara de contratenor, mas também pela sua arte impactante, que transcende e derruba vários paradigmas.

   Nascido a 1º de Agosto de 1941, Ney de Souza Pereira,73, é uma das maiores figuras da arte brasileira. Além de cantor, é diretor, iluminador e ator.



  O seu talento se evidenciou enquanto fazia parte do grupo Secos & Molhados (1972-1974), que, buscando um estilo inovador e híbrido, foi de extrema importância na sua formação.


  Com a sua saída do grupo, iniciou a sua carreira solo e passou a contextualizar os seus shows com composições assinadas por alguns dos maiores nomes da composição brasileira, como Chico Buarque, Tom Jobim, João Bosco, Rita Lee, Cartola, Martinho da Vila, Heitor Villa-Lobos, Erasmo e Roberto Carlos, Lenine, Cazuza, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil.



 "...Rompi tratados
Traí os ritos
Quebrei a lança
Lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa
É não estar vencido
Minha vida, meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu Sangue Latino
Minh'alma cativa"
(Sangue Latino/ João Ricardo, Paulinho Mendonça)

  
  Se não for o único, é um dos poucos cantores "showman" brasileiros, conseguindo fazer nos seus espetáculos o que poucos fazem. Na verdade, em se falando nesse formato de show, só se vê algo parecido nas apresentações de Maria Bethânia, que dispensa apresentações.

Meus álbuns prediletos de sua carreira solo são: "Beijo Bandido" (2009), "Vagabundo" (2004), "Inclassificáveis" (2008), " Ney Interpreta Cartola" (2002), "Um Brasileiro" (1996), "Pescador de Pérolas" (1987), "As Aparências Enganam" (1993) e "À Flor da Pele" (1991).



  Com 73 anos, ele mostra que sua arte é atemporal e novamente desconstrói paradigmas (sobre velhice, sexualidade, comportamento etc.). Qual Zeus, ele desafia Cronos.