sábado, 23 de agosto de 2014

Canção Óbvia

 Lendo Pedagogia da Indignação, de Paulo Freire, encontrei um poema muito belo (quase tão belo quanto o Liberdade, de Marighella).

"Canção Óbvia

Escolhi a sombra desta árvore para
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e conversarei com os homens
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,
em voz baixa e precavidos: É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso, esperar, na forma em que esperas,
porquê esses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente ,antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.

Paulo Freire
Genève, Março 1971."

[(In: Freire, P. Pedagogia da Indignação. São Paulo: UNESP, 2000.
Fonte: Instituto Paulo Freire (http://www.paulofreire.org/)]

 Semelhante ao que disse Mia Couto sobre Moçambique, para mim, o Brasil ainda não se livrou das amarras da Ditadura Militar. Grandes grupos ainda dividem o bolo, tratando a massa, o proletariado, os gados, com um tipo irônico de "justa medida", que mantém a focinheira no eleitorado. A noção de outrora de "privatização" do Governo e suas instâncias, fazendo com que os poderes sejam detidos por poucos e se tornem quase hereditários, vigora discretamente. Esse macro-poder é sustentado por inúmeros micro-poderes igualmente injustos. A convivência das elites dos macro e micro-poderes (lembremos de A Revolução dos Bichos pra saber quais são) com os cidadãos comuns é, no mínimo, turbulenta. A sobrevivência nesses ambientes é incerta. Há os que engolem o vinho tinto de sangue e os que destinam suas vidas a tentar fazer com que os verdugos bebam do próprio veneno. Além desses, há aqueles que, sob uma aparente degustação do vinho, se preparam. "Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade".
- A mini-Brasília?
 Em uníssono, gritam Caê ["tudo é divino, tudo é maravilhoso"(ironicamente)] e Chico ("De que me vale ser filho da santa? Melhor seria ser filho da puta! Outra realidade menos morta...tanta mentira, tanta força bruta!").

"Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque
Não vemos"
(Daniel na Cova dos Leões - Renato Russo)




Volvendo ao velho Chico, que não reflete mais nos olhos a transparência de um revolucionário, e sim o tom do Blues silencioso, "de muito gorda a porca já não anda". Meu vegetarianismo se limita ao literal...então, vamos ao abate!



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