sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Seu Amor



"[...] O seu amor


Ame-o e deixe-o 
Livre para amar...
Ir aonde quiser...
Brincar...
Correr...
Cansar...
Dormir em paz."

(O Seu Amor - Gilberto Gil)


  Não é de hoje que se discute sobre o Amor e todas as suas facetas e tentáculos, e, dentre as escassas características da estrutura social contemporânea, há um pedestal para a mudança de perspectiva das relações amorosas.

  Nós crescemos aprendendo que há "uma tampa para cada panela" e, em cima disso, construímos, como disse o síndico da MPB, os nossos sonhos, os nossos castelos e criamos um mundo de encanto onde tudo é belo. A simples menção à existência de um sentimento por qualquer outra pessoa já é vista como algo absurdo e é reprimida ou alimentada "às escondidas".


  O momento é propício: No fundo do lago, a maquiagem revela o verdadeiro Narciso...e ele é horrendo. Nessas décadas de "catarse" da sociedade, assuntos como religião, amor, fome, drogas, classes, política estão começando a ser encarados da forma que é necessária. O ser humano está fadado ao amor incondicional, e, quando digo incondicional, também falo da condição monogâmica que nos é imputada. Um dos conceitos que mais admiro é o de "amor livre".  Um ser humano não é uma propriedade para ser obrigado a sentir amor (e vale ressaltar as múltiplas faces do amor) por só uma pessoa. Mesmo assim, como membro desse espaço-tempo, noto a minha alta resistência para a "praxis" dele. Quando o relacionamento afunda em lama (não a lama poética de Pernambuco, mas a lama de "Trocando em Miúdos"), surge um agente muito poderoso e um dos maiores motivos para o fim das relações: o ciúme.   

      
"O ciúme lançou sua flecha preta




E se viu ferido justo na garganta
Quem nem alegre, nem triste, nem poeta
Entre Petrolina e Juazeiro canta

Tanta gente canta, tanta gente cala
Tantas almas esticadas no curtume
Sobre toda estrada, sobre toda sala
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme"

(O Ciúme - Caetano Veloso)



  Faz-se mister enfrentar as nossas contradições internas buscando o lapidar do Ser, libertar pela verdade encarando nossa natureza. Autoconhecimento é a palavra chave e o amor livre (em toda a sua extensão) é a meta. "Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único". A mesma pessoa que disse isso, John Lennon, passou os últimos anos de sua vida amando incondicionalmente a uma só mulher.
   Não o fez por convenções sociais, mas pela ausência de necessidade de outra pessoa para conviver afora a Yoko Ono. Ela não representou uma reles tampa para a panela dele, a metade da laranja. Nela, ele descobriu um ser com uma visão de mundo muito bela.  Eles se conheceram na exposição de Yoko, onde havia uma escada e John subiu lá em cima e viu um simples "Sim!". Que pessoa seria capaz de passar uma mensagem tão simples, instigante e bela ao mesmo tempo? Uma japonesa genial com a qual milhões de "beatlemaníacos" têm um débito por, além de ter feito do ídolo deles um homem feliz e compreendido, ter sido injustiçada por tal.


"[...]É um estar-se preso por vontade


É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face"

(Monte Castelo - Renato Russo)






  "Acho que a gente é que é feliz", disse o Russo uma vez. Pode parecer contraditório, mas, anseio pela Yoko séc. XXI (rs). Creio que o amor livre também abrange o reconhecimento de que uma pessoa se identifica tanto com outra que não há necessidade de terceiros na relação.



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