sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ensaio Sobre a Cegueira

Desde que enveredei pelas páginas da Ciência Política, meus livros de literatura têm rendido na estante qual sal na cozinha. A rotina acadêmica demanda uma quota de livros também deliciosos, embora naturalmente diferentes. Dessa forma, acabei por tornar-me um tanto mais seletivo em relação ao que meus olhos deglutem. Restaram-me poucas urgências de se ler: Guimarães Rosa, Gabo, Saramago e Mia Couto, os quatro magos da realidade fantástica. 
Nesses últimos dias, findei a leitura de "Ensaio Sobre a Cegueira", de Saramago, obra que se mostrou tal qual fruta do pé, o sabor está na pureza estética. Aparentemente, o livro fala sobre a paupérrima condição humana e que, nessa situação, todo e qualquer construto hierárquico é secundário. Estão todos cegos! Em terra de cego, quem tem olhos para ver não é rei. Nesse reino, quem tem olhos para ver está fadado a enxergar a desgraça de um mundo de cegos que não têm consciência da própria cegueira. E mais, não pode nem se mostrar como as únicas íris vivas, pois, os riscos da ditadura do mais fraco tornariam-se insustentáveis. 
Para mim, Saramago vai além, acabando por traçar rotas éticas descartando os mapas religiosos. Assim, se estamos todos cegos, qual a importância das desavenças, calúnias, dos assassinatos, do orgulho, do sucesso? São mesmos necessários esses pilares do cotidiano humano ou eles apenas servem para ludibriar a mente, fazendo-a olvidar da própria esterilidade ética?
Essa cegueira moral iguala a todos e, só assim, pode-se pensar sobre a possibilidade da solidariedade, do comportamento altruísta, como um modo de tornar a orbe dividida entre todos um pouco mais tolerável enquanto transição. Mais do que meras distopias, Saramago nos apresenta metáforas lúcidas, precisas e cristalinas para que percebamos as fronteiras do quadro da vida e adentremos sem a ilusão da visão. Ele é o meu cirurgião de realidades favorito.





sábado, 9 de julho de 2016

Rita Lee


  Na música popular brasileira, por vezes, nos deparamos com as mais singulares personagens. Me questiono sobre como seria a vida sem a irreverência da Rita Lee, a mais perfeita tradução de Sampa, segundo o mano Caetano. Ela me remete aos escritores brilhantes que conseguem alcançar um humor extremamente criativo, como Wodehouse, Jô Soares e Douglas Adams. Diluindo essa essência em suas criações, produz vivências particularmente interessantes. 

  Após anos esperando o "sim" de Yoko Ono para regravar algumas das músicas dos Beatles, e aborrecida (do jeito dela) com a demora, ela traz esse resultado inusitado:



  Acredito que só a mulher que foi brilho dos Mutantes e que desperta admiração excepcional em Tom Zé poderia fazer isso com a música dos garotos de Liverpool. E da mesma forma que Rita Lee transforma um clássico em uma irreverente e infantil canção, ela nutre o baobá da MPB com a seiva de uma das mais cruas e, por isso mesmo, completas obras sobre o amor:




   A genialidade dela, por mais que eu já tenha falado, pode ser melhor expressada por Tom Zé:





terça-feira, 24 de maio de 2016

She

23 DE MAIO DE 2016

"Lana,

Um dia, alguns anos atrás, fomos apresentados um ao outro por uma amiga querida. Como as veias da Vida gostam do exótico, quis o destino que a minha amiga lhe emprestasse um livro meu para que você tornasse suas férias um tanto mais interessantes. Quis a minha amiga que fosse o meu exemplar de "Cartas a um Jovem Poeta", de Rilke. Mas o que ainda não entendo é por que cargas d'água você foi se apaixonar primeiro pela minha assinatura?! Quem diria que uma assinatura uniria duas pessoas numa relação tão duradoura, verdadeira e límpida? 

Mia Couto escreveu uma vez sobre o fio das miçangas. Sinto que os vários aspectos da minha vida são inúmeras miçangas de cores, tamanhos e formas diferentes que só ganham um ordenamento por sua causa. Você é o fio que permeia a minha existência. No dia em que nos conhecemos, liguei para meu grande amigo Luan e disse: estou apaixonado! É ela!
Aos poucos, fomos nos conhecendo e eu lhe dedicando músicas, poemas, livros, filmes e afins. Lembro-me que a primeira música foi "She", de Charles Aznavour. Como eu tinha acabado de ir a um show dele, ainda estava na fase de encantamento. Além disso, essa música traduz de forma incomparável o meu modo de lhe ver. Aquela minha amiga que nos apresentou lhe comparou à personagem Anna Scott, do filme Notting Hill. Assisti ao filme...e "She" estava lá! A trilha sonora também contava com Al Green interpretando Bee Gees, o que me fez ficar fascinado pela obra. Somos feitos de silêncio e som. Hoje, depois de tanto tempo, tantos lugares visitados, experiências vividas, vejo que nossa convivência nos fez mais fortes e menos erráticos. Aprendi com você o que é amar em demasia e você aprendeu comigo a tranquilidade em relação às oportunidades de crescimento que a Vida nos dá. Você conheceu Simone comigo e assistimos ao show de Bethânia juntos! És a mulher especialmente carinhosa com a qual eu desejo compartilhar cada passo desse eterno caminhar que é viver. Lhe desejo os parabéns de última hora, mas não tarde o bastante! Queria que todas as pessoas no mundo fossem amadas como você é.

Do teu,
Renato Lira."






 













segunda-feira, 28 de março de 2016

Religare

Como diria o poeta, a poesia é pra comer. Não com a fome macrobiótica das elites milimetricamente desinteressantes, mas com a fome dos meninos do Brejo da Cruz, marginalizados, alucinados se alimentando de luz. No Nordeste, ovo de Páscoa não se faz nem reverbera. Vai mirrando, espezinhado, sucumbindo no pilão da Caatinga. Nessa terra do paraíso impossível, a santa semana do ocidente em metástase pelo mundo se resume a um bocado de ritos executados com o fulgor da insustentável leveza  da nuvem que destronou o Titanic. Nos poetas de barro, bicho-de-pé, água de cacimba e farinha com açúcar, lemos as parábolas e os ensinamentos dos caminhos abertos pelos jumentos. Encontramos a redenção, a rebentação.



"...Meu divino redentor
Que pregou na Palestina
Harmonia, paz e amor
Na vossa santa doutrina
Pela vossa mãe querida
Que é sempre compadecida
Carinhosa, terna e boa
Olhai para os pequeninos
Para os pobres nordestinos
Que vivem no mundo à toa

Meu bom Jesus Nazareno
Pela vossa majestade
Fazei que cada pequeno
Que vaga pela cidade
Tenha boa proteção,
Tenha em vez de uma prisão,
Aquele medonho inferno
Que revolta e desconsola,
Bom consolo e boa escola
Um lápis e um caderno."



( Trechos de "Emigração e As Consequências", de Patativa do Assaré)