segunda-feira, 28 de março de 2016

Religare

Como diria o poeta, a poesia é pra comer. Não com a fome macrobiótica das elites milimetricamente desinteressantes, mas com a fome dos meninos do Brejo da Cruz, marginalizados, alucinados se alimentando de luz. No Nordeste, ovo de Páscoa não se faz nem reverbera. Vai mirrando, espezinhado, sucumbindo no pilão da Caatinga. Nessa terra do paraíso impossível, a santa semana do ocidente em metástase pelo mundo se resume a um bocado de ritos executados com o fulgor da insustentável leveza  da nuvem que destronou o Titanic. Nos poetas de barro, bicho-de-pé, água de cacimba e farinha com açúcar, lemos as parábolas e os ensinamentos dos caminhos abertos pelos jumentos. Encontramos a redenção, a rebentação.



"...Meu divino redentor
Que pregou na Palestina
Harmonia, paz e amor
Na vossa santa doutrina
Pela vossa mãe querida
Que é sempre compadecida
Carinhosa, terna e boa
Olhai para os pequeninos
Para os pobres nordestinos
Que vivem no mundo à toa

Meu bom Jesus Nazareno
Pela vossa majestade
Fazei que cada pequeno
Que vaga pela cidade
Tenha boa proteção,
Tenha em vez de uma prisão,
Aquele medonho inferno
Que revolta e desconsola,
Bom consolo e boa escola
Um lápis e um caderno."



( Trechos de "Emigração e As Consequências", de Patativa do Assaré)